Basic Research https://doi.org/10.21041/ra.v14i3.759

Comparação do comportamento mecânico de lajes reforçadas com PRFV e aço

Comparison of mechanical behavior of slabs reinforced with GFRP and steel
Comparación del comportamiento mecánico de losas reforzadas con PRFV y acero

R. Christ1*, H. Z. Ehrenbring2, F. Pacheco2, D. Schneider2, B. F. Tutikian2, G. F. Moreira2, L. Wegher3, O. Beliaev4

1 Department of Civil and Environmental, Universidad de la Costa, Calle 58 #55-66, Barranquilla 080002, Colombia.

2 Polytechnical School, UNISINOS University, São Leopoldo, 93040-230, Brazil.

3 Civil engineering and is the CEO for te Composit Group Brasil, Chapecó, 89801-000, Brazil.

4 State Institute of Commerce, Смольная, 125195, Moscow.

*Autor de contato: rchrist@unisinos.br

Recebido: 01/06/2024
Revisado: 31/07/2024
Aceito: 02/08/2024
Publicado: 01/09/2024


Citar como: Christ, R., Ehrenbring, H. Z., Pacheco, F., Schneider, D., Tutikian, B. F., Moreira, G. F., Wegher, L., Beliaev, O. (2024), “Comparison of mechanical behavior of slabs reinforced with GFRP and steel”, Revista ALCONPAT, 14 (3), pp. 224 - 240, DOI: https://doi.org/10.21041/ra.v14i3.759

RESUMO
O objetivo deste estudo é avaliar o comportamento mecânico do GRFP em lajes maciças de concreto. O uso de vergalhões de polímero reforçado com fibra de vidro (PRFV) no projeto de construção tem sido uma técnica alternativa para fornecer estruturas mais duráveis. No entanto, existe a necessidade de avaliar o comportamento das lajes reforçadas com PRFV sob flexão e comparar o estado de serviço (SS) e o estado de serviço último (USS) do elemento carregado. Assim, lajes de concreto armado de espessuras variadas foram construídas com vergalhões de aço e PRFV. Os resultados mostram que a carga aplicada para a deflexão máxima do vão da laje de PRFV sob SS foi 50% menor do que para aquela com armadura de aço. A deflexão máxima do vão da laje de PRFV sob USS também foi 282% maior do que para armaduras de vergalhões de aço.

Palavras-chave: CRFV; estrutura de concreto; lajes; resistência à flexão; comportamento mecânico.


1. INTRODUÇÃO

A utilização de polímeros reforçados com fibras (PRF) em estruturas, tanto em concreto armado quanto em elementos estruturais com perfil variado, vem aumentando (Satasivam et al., 2018). Como resultado, estudos para avaliar as vantagens do concreto reforçado com PRF foram conduzidos em vários países. Esses estudos avaliaram as propriedades mecânicas do PRF e seu efeito potencial no desempenho quando incorporado em um elemento estrutural (Ahmed et al., 2020; Gajdošová et al., 2020; Gravina et al., 2020; Zhang et al., 2021; Бондалетова, 2013). Normas específicas para barras de FRP e estruturas reforçadas foram desenvolvidas no mundo, como ACI 440.1R-15 (2015), CAN/CSA S806-12 (2012), CNR-DT 206 (2006), GOST 31938 (2014), GOST 30247.0 (1994) and GOST 32486 (2013).

A corrosão é o mecanismo de degradação mais relevante em estruturas de concreto armado e de maior impacto, seja pelo contato com dióxido de carbono ou íons cloreto (Gajdošová et al., 2020). Os reforços de aço sob corrosão degradam-se, diminuindo a estabilidade estrutural de toda edificação (Jabbar; Farid, 2018). Este fenômeno por si só demonstra a importância do reforço de PRF, pois ele não corrói e prolonga a vida útil no estado de límite de serviço (ELS) da estrutura. Estudos já comprovaram que o PRF é resistente a ambientes alcalinos, como matrizes cimentícias (Gravina et al., 2020; Manalo et al., 2020).

Por outro lado, como o PRFV é um compósito formado por fibras e resina, deve-se utilizar uma combinação específica de materiais dependendo de sua aplicação para garantir certas características de durabilidade do elemento (Bakouregui et al., 2021). Em PRF para produzir Polímero Reforçado com Fibra de Vidro (GFRP). No entanto, o tipo de fibra de vidro usado também deve ser resistente a álcalis (Arczewska; Polak; Penlidis, 2021).

As lajes de concreto armado são elementos estruturais importantes que absorvem e distribuem as cargas de uma edificação e estão sujeitas principalmente à flexão (Mahroug; Ashour; Lam, 2014). Vários estudos examinaram o efeito de diferentes tipos de PRF no comportamento de lajes e vigas (Ahmed et al., 2020; Ashour, 2006; Barris et al., 2013; Mahroug; Ashour; Lam, 2014; Noël; Soudki, 2014; Satasivam et al., 2018). No entanto, Kaszubska et al. (Kaszubska; Kotynia; Barros, 2017) observou que um obstáculo no uso do PRF era que esse tipo de vergalhão de reforço tinha comportamento elástico-linear e baixo módulo de elasticidade, o que o tornava propenso à ruptura frágil quando submetido a uma alta tensão de tração, levando à falha repentina.

Projetos de concreto reforçado com aço aproveitam o potencial de ambos os materiais, ou seja, a resistência à compressão do concreto e a resistência à tração do aço. Neste caso, a resistência do aço é totalmente utilizada quando o aço de reforço começa a ceder e contribui para a ductilidade da estrutura (Shi et al., 2020). No caso de projetos de concreto armado com PRF, o escoamento excessivo do elemento é indesejável, pois o PRF não cede, apresenta um comportamento elástico linear e a deformação do elemento é maior do que a do aço (Chu; Hossain; Lachemi, 2020).

A deformação das barras de reforço de PRFV afetou diretamente o desempenho estrutural e o ELS (Starkova et al., 2012). Houve três estágios de deformação do FRP. No primeiro estágio, a deformação foi observada principalmente na resina devido ao seu baixo módulo de elasticidade e redistribuição de tensões nas fibras (Shi et al., 2015). O segundo estágio continha um aumento lento na deformação devido às características construtivas da barra de reforço, como espaços vazios na resina e na fibra. O terceiro estágio ocorreu quando a tensão da barra de reforço excedeu 60% de sua tensão máxima (Wang et al., 2014).

No caso do GFRP, a relação entre a deformação máxima e a deformação elástica inicial diminuiu quando a tensão aplicada excedeu 30% da sua resistência máxima à tração (Najafabadi et al., 2018). Ensaios mecânicos em lajes reforçadas com GFRP submetidas à flexão em temperaturas ambiente e elevadas foram conduzidos por Gao et al. (Gao et al., 2020) e Rosa et al. (Rosa et al., 2020). No entanto, esses estudos se concentraram na capacidade de carga e na deformação final dos elementos.

O objetivo deste estudo, portanto, é aumentar o conhecimento sobre o comportamento mecânico de lajes reforçadas com GFRP de diferentes espessuras sob flexão. Estudos experimentais e analíticos foram conduzidos para avaliar o ELU e ELS de lajes reforçadas com GFRP em comparação com aço. Um estudo detalhado sobre a ocorrência de cargas de primeira fissura para diferentes espessuras de laje foi realizado e sua relação com os momentos máximos foi analisada.

2. MATERIAIS E MÉTODOS

Foram produzidas doze lajes com 3.000 mm de comprimento e 1.100 mm de largura. As espessuras (w) selecionadas foram 70 mm, 100 mm e 120 mm. O reforço foi fornecido com barras de PRFV de 8 mm de diâmetro e foram feitas três montagens de lajes de teste para cada espessura de laje. Para fins de comparação, foram fabricadas 3 lajes de 100 mm de espessura com barras de aço do mesmo diâmetro. Os corpos de prova foram identificados como GFRP-70 (w = 70 mm), GFRP-100 (w = 100 mm), GFRP-120 (w = 120 mm) e Aço-100 (w = 100 mm). As lajes com seções transversais mostradas na Figura 1. A classe de resistência do concreto foi de 40 MPa, conforme recomendado na norma C143-20 (ASTM, 2020).

Figura 1. Seção transversal da amostra das lajes deste estudo (dimensões em mm).

Tanto as barras de GFRP quanto as de aço tinham diâmetros nominais de 8 mm e área de seção transversal de 40,5 mm2. As barras de GFRP foram fabricadas em um processo de pultrusão com fibras de fibra de vidro tipo E impregnadas com resina epóxi. A superfície externa das barras de GFRP tinha ranhuras correspondentes ao tipo de fibra e resina usadas na fabricação. As barras de aço eram de aço carbono A615/A615M-14. As propriedades mecânicas das barras de GFRP usadas neste estudo são mostradas na Tabela 1. As barras de GFRP foram avaliadas seguindo a norma ASTM D7205 e as barras de aço seguindo as prescrições ASTM A615.

Tabela 1. Propriedades mecânicas de barras de GFRP e aço deste estudo

Propriedades Aço GFRP
Resistencia à compressão (MPa) 500 300
Resistencia à tração (MPa) 500 1,000
Resistencia ao cisalhamento (MPa) 500 150
Módulo de elasticidade (GPa) 210 50

As lajes foram submetidas a ensaios de flexão estática de 4 pontos, conforme mostrado na Figura 2. A capacidade de carga do aparelho foi de 300 kN monitorada por uma célula de carga de 50 kN com resolução de 0,01 kN. A deflexão da laje foi medida com dois transdutores de deslocamento variável linear (LVDT) com resolução de 0,002 mm colocados nas extremidades do meio do vão. Os dados de carga e deflexão foram registrados com uma taxa de 10 Hz. A metodologia de teste foi o deslocamento prescrito a uma taxa de 5 mm/min.

Figura 2. Dimensões do aparelho de teste de flexão em centímetros: (a) posicionamento e instrumentação do corpo de teste e (b) teste real em andamento.

Cargas máximas experimentais foram analisadas e comparadas com momentos nominais calculados analiticamente de acordo com a norma ACI 440.1R-15 (ACI 440.1R-15, 2015). As lajes de GFRP foram avaliadas para dois modos de falha: (a) falha governada por esmagamento do concreto e (b) falha governada por ruptura do FRP, conforme mostrado na Figura 3.

Figura 3. Condições de ruptura por flexão para concreto reforçado com FRP. Fonte: ACI 440.1R-15 (2015).

O modo de ruptura flexural resultante dependia da relação entre a taxa de reforço e a taxa de reforço balanceada. A taxa de reforço (ρf), mostrada na Eq. 1, é a razão entre a área efetiva da seção transversal do reforço em relação à área efetiva da seção transversal do concreto. A taxa de reforço balanceada (ρfb), mostrada na Eq. 2, é a razão de reforço na qual ocorre a transição do modo de falha. Se ρf fosse menor ou igual a ρfb (ρf ≤ ρfb), a ruptura era controlada pelo estresse na barra de reforço de FRP. Se ρf fosse 1,4 vezes maior ou igual a ρfb (ρf ≥ 1,4 ρfb), a ruptura ocorria por esmagamento do concreto. Mas se ρf fosse menor que ρfb e menor que 1,4 ρfb (ρf < ρfb < 1,4 ρfb), a ruptura ocorria tanto pelo esmagamento do concreto quanto pelo estresse do FRP.

ρf=Afb x d Eq. 1
ρfb=0,85 x β1xfcffc x Ef x εcuEf x εcu+ffu Eq. 2

A partir da análise do modo de ruptura em relação à taxa de armadura, a resistência nominal ao momento das lajes (Mn) pode ser determinada. No caso de ruptura por esmagamento do concreto, o momento é dado pela Eq. 3. No caso de ruptura da barra de reforço de FRP, o momento é dado pela Eq. 4. O momento nominal de qualquer modo de falha deve ser multiplicado por um coeficiente de redução (Ø) dado pela Eq. 5. Os cálculos foram feitos de acordo com o ACI 440.1R-15 (ACI 440.1R-15, 2015) e comparados com os momentos máximos e momentos limites de deformação dos dados experimentais. A partir desses resultados, os coeficientes de segurança de cada um dos elementos de laje estrutural testados foram avaliados.

Mn=Af x ff x (d-Af x ff0,85 x f'c x b2) Eq. 3
Mn=Af x ffu x (d-(εcuεcu+εfu) x d2) Eq. 4
0={0,55forρfρfb0,3+0,25xρfρfbforρfb<ρf<1,4ρf0,65forρf1,4ρfb} Eq. 5

3. RESULTADO

3.1. Comportamento experimental de flexão de GFRP

Os resultados dos ensaios de flexão de 4 pontos nas lajes GRFP são mostrados na Tabela 2.

Tabela 2. Valores médios e desvio padrão das propriedades medidas em lajes reforçadas com GFRP.

Propriedades Lajes
GRFP-70 (70 mm) GRFP-100 (100 mm) GRFP-120 (120 mm)
f1 (kN) 0.2 ± 0.01 6.5 ± 0.99 12.6 ± 0.80
𝞭1 (mm) 0.2 ± 0.05 3.8 ± 0.54 7.1 ± 0.86
F𝞭ELS (kN) 0.3 ± 0.03 7.5 ± 0.54 13.3 ± 0.60
fu (kN) 5.8 ± 0.27 42.8 ± 2.20 45.7 ± 0.11
𝞭ELS (mm) 255 ± 180 209 ± 139 116 ± 040
Mcr (kN.m) 0.2 ± 0.01 6.4 ± 0.97 12.3 ± 0.78
Mmax (kN.m) 5.7 ± 0.27 42.0 ± 2.16 44.8 ± 0.11
MLD,initial/Mcr 0.9 ± 0.00 0.5 ± 0.00 0.2 ± 0.00
MLD,final/Mmax 0.0 ± 0.00 0.0 ± 0.00 0.0 ± 0.00
f1 – carga máxima na primeira fissura; 𝞭1 – deflexão na primeira fissura; f𝞭ELS: – carga máxima para ELS; fu – carga máxima; 𝞭ELS – deflexão máxima para ELS; Mcr – momento na primeira fissura; Mmax – momento máximo, MLD,initial – momento na diminuição da carga inicial, MLD,final – momento na diminuição da carga final

A Tabela 2 mostra que f1 para todas as lajes foi menor do que a carga de deslocamento de L/250 para 11,2 mm, considerando o tamanho do espécime. Os valores de f1 e f𝞭ELS também aumentaram conforme a espessura da laje aumentou, mas em uma taxa baixa. No entanto, a formação da primeira fissura foi retardada e o ganho em rigidez foi basicamente devido à espessura da laje.

A razão f1 / f𝞭ELS se aproximou de 1,0 conforme a espessura da laje aumentou: 0,66 para GFRP-70, 0,87 para GFRP-100 e 0,95 para GFRP-120. A diminuição da rigidez de um elemento foi associada à ocorrência prematura da primeira fissura, conforme observado por Jabbad e Farid (Jabbar; Farid, 2018).

Consequentemente, lajes mais finas com menos concreto presente dependiam da taxa de armadura para resistir às fissuras do concreto (Ebead; Marzouk, 2004). Assim, no caso da laje de GFRP de 70 mm, aumentos na taxa de armadura trariam mais relevância aumentando o Mcr do que aumentando a espessura da laje.

Aumentos na espessura da laje limitaram a deformabilidade, o que era esperado de estudos de referência (PELED; BENTUR; YANKELEVSKY, 1998). As lajes GRFP-120 tiveram a menor deflexão, de até 116 mm, que foi menos da metade da deflexão máxima do vão medida para GRFP-70. Os momentos Mcr e Mmax também aumentaram com o aumento da espessura da laje, com um aumento de 70% na espessura resultando em um aumento de 7 vezes em Mmax. À medida que a carga diminuiu em relação ao aumento da deflexão da linha central (verificado em uma curva de deflexão), os momentos instantâneos na diminuição da carga (MLD) foram determinados. No caso das lajes GRFP, a maior deformabilidade foi uma consequência do módulo de elasticidade de 50 GPa do reforço, o que tornou o MLD mais importante no primeiro 1/3 da curva de carga devido à fissuração.

Também foi perceptível na Tabela 2 que a razão MLD,initial/Mcr diminuiu conforme a espessura da laje aumentou. O valor de MLD foi substancial para lajes GFRP-70, representando quase 90% da carga para a primeira fissura ocorrer. Essa razão diminuiu para 50% para GFRP-100 e 20% para GFRP-120. Mesmo para lajes mais espessas, essa diminuição de carga resultante da formação ou propagação de fissuras seria de interesse, conforme observado por Zheng, Yu (ZHENG; YU; PAN, 2012).

Lajes mais espessas tiveram mais controle sobre fissuras, pois os reforços estavam mais próximos das bordas sendo tensionadas. No caso da laje GRFP-70 mais fina, a cobertura de concreto era de 20 mm, os reforços estavam mais próximos do centro de gravidade do elemento do que da borda e a laje mais fina também tinha um braço de momento menor. Essas características resultaram em um atraso na redistribuição das cargas e quedas mais significativas no estresse.

A Figura 4 mostra os pontos de dados e ajustes de curva do momento de fissuração (Mcr), momento máximo (Mmax) e momentos nas diminuições de carga inicial e final (MLD, inicial/Mcr e MLD, final/Mmax) em relação à espessura da laje para todas as lajes GRFP.

Figura 4. (a) Fissuração e momentos máximos e (b) relações MLD em relação à espessura das lajes reforçadas com GRFP deste estudo.

A Figura 4(a) mostra que Mcr aumentou conforme a espessura da laje aumentou, e os valores foram correlacionados, pois o ajuste da curva teve R2 = 1. O mesmo resultado analítico foi observado para Mmax. Quanto às razões da Fig. 4(b), MLD,initial/Mcr diminuiu conforme a espessura da laje aumentou. Esse comportamento foi atribuído ao aumento da rigidez do elemento, que estava diretamente relacionado à mudança na inércia conforme a espessura aumentou. O MLD,initial permaneceu proporcional entre as lajes como resultado de todas as lajes serem produzidas com o mesmo tipo de concreto com uma resistência à tração de aproximadamente 3,2 MPa. Por outro lado, MLD,final/Mmax permaneceu essencialmente em zero para todas as lajes. Isso foi representativo da ausência ou queda insignificante nas cargas no último 1/3 das curvas de deflexão da Figura 5. A Figura 5 também mostra que, nos estágios inicial e final do teste, houve formação e propagação de várias fissuras, respectivamente, conforme observado por (Ahmed et al., 2020). Isso foi resultado do alongamento do reforço através da fissura e foi um comportamento esperado também observado nos estudos de (BARRIS et al., 2013; ERFAN et al., 2021).

Figure 5. Curvas de deflexão para lajes reforçadas com GFRP deste estudo, a) estágio limite de serviço; b) estágio limite último.

A Figura 5(a) mostra as cargas ELS e suas flutuações até uma deflexão de 11,2 mm. As lajes GFRP-100 e GFRP 120 apresentaram redução na carga e altas deflexões, com comportamento semelhante, caracterizando o comportamento de fissuração múltipla. A laje GFRP 120 apresentou redução tanto na fissuração principal quanto na deflexão do vão.

Apenas as lajes identificadas como GFRP-70 mm não se comportaram de forma semelhante, devido à propagação de uma única fissura. As cargas ELS apresentaram vários picos indicativos de fissuras iniciais antes que o limite de deflexão na análise fosse atingido. Isso foi resultado da relação entre a carga de fissuração e o limite de deflexão ELS. À medida que a espessura da laje aumentava, as curvas se tornavam mais semelhantes, mas o número de quedas na carga diminuía. Isso estava de acordo com a hipótese de aumento da rigidez do elemento e nucleação tardia de fissuras em espessuras maiores (Jabbar; Farid, 2018).

Os resultados do ELU da Fig. 5(b) mostram estágios iniciais e finais distintos para todas as lajes. No caso de GFRP-100 e GFRP-120, a ocorrência de quedas na carga e no número de picos amorteceu quando a carga atingiu 50% do valor máximo. Esses comportamentos foram devidos às barras de GFRP terem módulo de elasticidade de valor semelhante ao tipo de concreto usado. Quedas na carga e aumento na deflexão foram indicativos da formação de novas fissuras sem atividade das barras de reforço, que atuaram como reforço passivo neste estágio. O reforço tornou-se ativo quando o concreto rachou e esticou as fibras através das aberturas. Isso exigiu que cargas mais altas fossem aplicadas para formar novas fissuras, pois tensões mais altas eram necessárias para abrir novas fissuras. Se o limite de carga para novas fissuras não fosse atingido, a propagação das fissuras mais antigas ocorria.

Deve-se notar que a ruptura ocorreu repentinamente nos elementos, apesar da alta flexibilidade. A Figura 6 mostra a distribuição de tensões na região de interface entre a barra de reforço GFRP e a fissura propagada. À medida que as fissuras se propagavam, as barras giravam em relação à fissura, induzindo tensões combinadas de tração e cisalhamento na região de interface. Isso ocorreu no segmento destacado da abertura e no final da fissura, onde a barra permaneceu ligada ao concreto e seguiu o mesmo ângulo de deformação do elemento. As deflexões medidas excederam os valores aceitáveis para elementos de concreto definidos pelas normas ACI 318, EN1992-1-1, ABNT NBR 6118 e outras. O desalinhamento entre as paredes da fissura induziu cisalhamento na barra de reforço GFRP. Isso foi perceptível na aparência visual da barra de reforço GFRP após a ruptura da laje mostrada na Figura 7. Assim, a ruptura repentina dos elementos foi resultado das tensões combinadas devido à tração e cisalhamento das barras de reforço.

Figura 6. Distribuição de tensões na região de interface entre a barra de reforço GFRP e a fissura que levou à ruptura por cisalhamento

Figura 7. Aspecto visual da armadura de PRFV após ruptura por cisalhamento interno causado pela propagação de fissuras na laje

3.2. Comparação entre lajes reforçadas com aço e GFRP

A laje de 100 mm de espessura com reforço de aço foi comparada com GFRP-100 e os resultados mostrados na Tabela 3. Ambas as lajes tiveram desempenho semelhante, pois fissuraram antes que a carga aplicada atingisse f𝞭SS. No entanto, conforme mostrado na Tabela 3, os valores específicos de f𝞭SS foram distintos para cada tipo de reforço. O aço teve um módulo de elasticidade maior que o GFRP e, por extensão, f𝞭SS maior. Embora isso tenha apresentado comportamentos superiores e previsíveis, a carga máxima (fu) da laje de aço foi menor e a deflexão máxima (𝞭ELU) foi 65% menor que o valor para GFRP-100.

Tabela 3. Valores médios e desvio padrão das propriedades de lajes de 100 mm de espessura com armadura de aço ou PRFV

Propriedade Laje com espessura h=100 mm
Aço GFRP-100
f1 (kN) 10.2 ± 1.02 6.5 ± 0.99
𝞭1 (mm) 2.41 ± 0.04 3.8 ± 0.54
F𝞭ELS (kN) 15.0 ± 0.60 7.5 ± 0.54
fu (kN) 37.2 ± 0.43 42.8 ± 2.20
𝞭ELU (mm) 7.4 ± 1.93 20.9 ± 1.39
Mcr (kN.m) 10.0 ± 1.00 6.4 ± 0.97
Mmax (kN.m) 36.5 ± 0.42 42.0 ± 2.16
MLD,initial/Mcr 0.0 ± 0.00 0.5 ± 0.00
MLD,final/Mmax 0.0 ± 0.00 0.0 ± 0.00

O módulo de elasticidade de cada tipo de reforço afetou a deformabilidade do elemento. O aço tem um módulo de elasticidade 3 a 4 vezes maior que o GFRP e, por extensão; elementos de aço devem ter deformações em torno de 3 vezes menores. No entanto, os resultados mostraram que a carga máxima (fu) foi menor para a laje de aço devido ao GFRP ter maior resistência à tração do que o aço.

As comparações das curvas de deflexão entre as lajes reforçadas com aço e GFRP são mostradas na Figura 8 para ELS e ELS. Os resultados são mostrados para cada uma das 3 amostras de cada tipo de laje. A queda nas cargas para ELS, quando avaliada como MLD ao longo das curvas, mostrou que a laje de aço teve variações de Mcr em torno de 13 vezes menores e Mmax em torno de 2 vezes menores que o GFRP-100. Este resultado também foi atribuído à diferença no módulo de elasticidade entre os materiais. Para a curva ELU, a laje de aço também apresentou um ganho de resistência para cima que, após estabilização, representou o rendimento do material. Em contraste, o comportamento do GFRP-100 apresentou um aumento constante na carga até a ruptura repentina. Esse comportamento linear entre tensão e deformação foi observado em barras de reforço individuais por Sadraie, Khaloo e Soltani (Sadraie; Khaloo; Soltani, 2019) e mostrado neste estudo para também se aplicar a lajes reforçadas.

Figura 8. Curvas de deflexão de lajes com armadura de aço e GFRP-100, a) Estágio limite de serviço; b) Estágio limite último.

A curva ELS da Figura 8 também mostra quedas de carga de menos de 1 kN para a laje de aço que se tornaram mais intensas no 1/3 final da curva. Em comparação, o GFRP-100 apresentou quedas mais relevantes no 1/3 inicial e no 1/3 final da curva. Isso indicou que a laje de aço tinha melhor controle sobre a fissuração e tinha mais fissuras com pequenas aberturas, o que explicava as quedas mais suaves na carga. No último 1/3 da curva, a armadura de aço estava no limite de fluência, o que amplificou as quedas na carga, pois o tempo de resposta do material já estava comprometido pelo alongamento. As diferenças visuais na fissuração na face tensionada da laje reforçada com aço e GFRP-100 são mostradas na Figura 9.

Figura 9. Face rachada da laje reforçada com aço e GFRP-100

No geral, pode-se afirmar que a magnitude da redução na carga devido a fissuras e o número de picos na curva de carga estavam relacionados ao módulo de elasticidade do reforço, enquanto Mmax estava relacionado ao limite de tensão de fluência do reforço. Como as barras de GFRP tinham maior resistência, o GFRP-100 foi capaz de atingir Mmax maior do que a laje de aço, mesmo se as barras de reforço fossem rompidas por cisalhamento.

3.3 Análise comparativa experimental e analítica

A Tabela 4 apresenta o momento fletor máximo de flexão (Mmax) obtido a partir de dados experimentais e o momento nominal (Mn) calculado a partir da Eq. 3 e Eq. 4 da norma. ACI 440.1R-15 (ACI 440.1R-15, 2015).

Tabele 4. Comparação de momentos experimentais e analíticos para lajes reforçadas com GFRP.

Momentos Espessuras das lajes
70 mm 100 mm 120 mm
Mmax (kN.m) 5.7 42 44.8
Mn (kN.m) 5.99 10.94 13.86
MmaxMn 0.95 3.84 3.23

A análise comparativa da Tabela 4 mostra que os momentos de flexão experimentais para lajes mais espessas foram maiores do que os valores analíticos. Em contraste, para a laje mais fina de 70 mm, o momento analítico foi maior do que o valor experimental. Em termos da razão Mmax/Mn, pode-se afirmar que as lajes mais espessas de 100 mm e 120 mm tiveram uma margem de segurança maior do que a laje de 70 mm.

A Figura 10 mostra uma comparação gráfica dos momentos de flexão experimentais e analíticos. O momento analítico teve um comportamento proporcional entre Mmax e a espessura da laje, indicando que a espessura da laje teve pouco efeito nos ganhos de resistência. Por outro lado, os momentos experimentais mostraram ganhos claros de resistência à medida que a espessura da laje aumentou. Deve-se notar que todas as lajes tiveram a mesma razão de reforço, independentemente da espessura.

Figura 10. Momentos de flexão experimentais e analíticos em relação à espessura da laje.

A análise comparativa demonstrou uma margem de segurança elevada. No entanto, a carga máxima aplicada que resultou no momento máximo de flexão não deve ser considerada um momento efetivo em condições normais de operação, pois não incluiu efeitos de fluência e carregamento de longo prazo. Isso se deve às condições de uso da estrutura, pois se a deformação ultrapassar o limite, a estrutura é considerada inoperante. Por outro lado, os momentos nominais calculados foram menores, pois incluíram efeitos de fluência e outros fatores em suas expressões analíticas. As normas ACI 318, EN1992-1-1, ABNT NBR 6118 e outras definiram um limite superior para deformações específicas de vergalhões a fim de evitar deflexão excessiva de elementos estruturais. Além disso, Fakoor e Nematzadeh (Fakoor; Nematzadeh, 2021) declararam que acima de 8% de deformação específica, o elemento estrutural não é mais plano e, consequentemente, não é mais compatível com a lei de Hooke.

Outra análise poderia ser feita considerando que, para a laje de 70 mm, a taxa de armadura calculada é menor que a taxa de armadura balanceada. Consequentemente, a laje mais fina rompeu devido ao esmagamento do concreto, enquanto as lajes mais grossas romperam devido às tensões da barra de reforço. Assim, para lajes mais grossas, a diminuição da capacidade de carga deve ser responsável pela fluência do material da barra de reforço. Como as barras de reforço GFRP tinham um módulo de elasticidade relativamente baixo, a deformação devido a cargas de longo prazo foi menor (Gonilha; Correia; Branco, 2013; Miàs et al., 2013).

Os efeitos de carregamento de curto e longo prazo em vigas com reforço GFRP foram avaliados por Miàs et al. (Miàs et al., 2015). Os resultados mostraram que as fissuras induzidas por flexão tiveram aberturas 25% maiores para vigas submetidas a cargas de longo prazo.

4. CONCLUSÃO

As conclusões obtidas neste estudo são:

- O aumento da espessura das lajes reforçadas com GFRP resultou em um aumento linear efetivo na capacidade de carga e uma diminuição na deflexão, devido à maior rigidez do elemento;

- As curvas de deflexão das lajes de GFRP, especialmente aquelas relacionadas ao USS, refletiram o mesmo comportamento linear dos experimentos conduzidos apenas com barras de reforço;

- A comparação entre os tipos de reforço determinou que as lajes reforçadas com GFRP apresentaram maior deflexão do que as lajes reforçadas com aço. Isso foi atribuído ao GFRP ter um módulo de elasticidade aproximadamente 4 vezes menor que o aço;

- A carga da primeira fissura evidenciada na laje reforçada com aço e na laje reforçada com GFRP, ambas com a mesma espessura e número de barras, foi de 10,2 kN e 6,5 kN, respectivamente. No entanto, se a espessura da laje for aumentada em 2 cm, a primeira carga de fissura é aumentada, atingindo um valor de 12,6 kN;

- Os resultados experimentais foram comparados com cálculos analíticos de padrões internacionais. Como a análise experimental não incluiu todos os coeficientes nas expressões matemáticas, esperava-se que os resultados experimentais fossem superiores aos cálculos analíticos, e isso foi corretamente comprovado nos resultados deste estudo. Mostrando que o padrão técnico usado para calcular estruturas reforçadas de GFRP é muito conservador, e os coeficientes de mitigação podem ser revisados.

5. AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem a colaboração na realização dos testes e na compra de matéria-prima, especialmente por itt Performance - UNISINOS

6. REFERÊNCIAS

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